quinta-feira, 8 de junho de 2017

Ode

Grande Espírito Minha Mãe sou
grata pela experiência de existir nesse corpo que é a fonte o templo e a festa de todas as minhas vivências cores estações lágrimas ritos memórias sensações afetos florestas prazeres

Esse meu corpo que me conduz no embalo da dança da brisa e da tempestade
com a necessidade do espírito de todos os seres
Que me põe voraz no espaço tempo das sinapses

É através das minhas orelhas que eu ouço os pássaros a voz do trovão alerta os orgasmos das ondas as gargalhadas das mulheres
O silêncio
Da pele de todos os meus órgãos que desvendo as texturas infinitas da Terra e suas crianças

Inspiro e nasço expiro e morro inspiro e nasço expiro e morro inspiro e nasço expiro e morro inspiro e nasço expiro e morro inspiro e nasço expiro e morro inspiro e nasço expiro e morro inspiro

Esse meu corpo que é antes de tudo só meu

Vai se confundindo pelas palavras do mundo
Reencontra-se

E me trilha na livre expressão de quem sou



quarta-feira, 7 de junho de 2017



massagem de cachoeira
o cabelo embaraçando
o rugido da garganta soltando concretos
nua


inteira

pra depois estirar na pedra quente e larga
e deixar a pele comer sol
de braços abertos

terça-feira, 21 de março de 2017

Eu gostaria de ser respeitada. Eu sou uma mulher, eu gostaria de ser respeitada. Eu sou uma mulher forte.
Eu sou uma mulher forte que está tentando fazer o que sente. Eu estou tentando falar o que quero dizer, do jeito que der, e gostaria de ser repeitada. Eu sou uma mulher forte que diz, que silencia também, mas diz, muito, sou uma mulher forte que milita e medita, e gostaria de ser respeitada. Eu estou tentando valorizar minha arte, minha poesia e aquilo que me afeta. Eu sou uma mulher beirando os 21, indo para o último ano da faculdade, tendo voz, falando sério mesmo mas gargalhando de bobagens infantis, trabalhando sem parar, sonhando alto, rodando com minhas hermanas, pisando descalça no chão, acreditando em fadas e recebendo golpes reais, dizendo palavrões e preces, superando abusos e acreditando no meu potencial,
e gostaria de ser respeitada.
Eu vivo em busca de honrar meu corpo, dar a ele o prazer que ele merece, meu corpo que é a floresta densa onde habitam todas minhas ancestrais, e nós
gostaríamos
de ser respeitadas
No meu corpo os meus pelos todos crescem até onde eu quero que cresçam, e eu quero que sejam crescidos mesmo, é assim que eu me sinto real, é assim que eu quero ser respeitada.
Eu acredito numa Divindade que amo, costumo pensar nela como Mulher, eu chamo minha Divindade também de Universo, Mãe Terra, Grande Espírito, Lua, Eu, Deusa, Deus, eu dou várias formas para ela, eu a encontro em mim, na noite, na gira, no cachimbo, na ayahuasca, em casa, na praia, na minha gata, nas pessoas queridas que me cercam, eu a encontro em tanto, tanto, e gostaria de respeito.
Eu estou exatamente onde deveria estar, fazendo exatamente o que deveria fazer, sentindo exatamente o que deveria sentir, expressando exatamente o que deveria expressar, comendo exatamente o que deveria comer, bebendo exatamente o que deveria beber, vestindo exatamente o que deveria vestir, rasgando exatamente o que deveria rasgar, escutando exatamente o que deveria escutar, mudando exatamente o que deveria mudar, permanecendo exatamente no que deveria permanecer,
Correndo quando deveria correr
Parando
Quando deveria parar
Desconfiando
Confiando
Desistindo
Resistindo
Aliviando
Fechando
Sorrindo
Gritando
Tendo
Exatamente a mesma autonomia que tenho para decidir exatamente o que decido
E eu decido
Que gostaria
De ser respeitada
Sem ter que agradecer por isso

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Os vãos dos prédios desafogam o céu e é só mormaço pousando sobre a pele
As minúcias dos espelhos regidos pelos cenhos franzidos a distancias
Os meninos e seus olhares giratórios incansáveis suas fragilidades impositoras de pedregulhos
As meninas e seus teares de entrelaçamentos e forças motoras de poesia concreta
As luzes anunciantes da magia pesada das palavras vocalizadas em vazio
Nossos aplicativos de meditação e grilos noturnos de artifício-tela
Nossas tentativas de escape
Nossas plantas nas janelas
Nossos cimentos rachados
Nós
Cidades





terça-feira, 2 de agosto de 2016

Mais uma pra ela que é de tanto eu não me aguentar

Nós

Pacotes de pele, pelos, cascos, digitais

Textura

Expansão de órgãos por porosidades impulsionadas de ossaturas
Expressões musculosas de estiradas condensações

Raridades típicas

Nossos gestos viciados
Nossas alergias
Nossos gostos por uns cheiros e outros
Nosso traço ao escrever
Nossa quantidade de suor
Nosso timbre

No entanto

Essa esfera
Gigante
De fogo
Que nos pinta a todos de dourado e quentura

Me faz lembrar das semelhanças da minha pele
Com a tua
Feita de conchas, pegadas, e aaaaaaaaaaaaaahs tuas notas
(A maior prova de que músicas
São ondas
Sonoras)

Isso é coisa que até há alguns dias não percebia,
Mas
Desde a primeira vez que ouvi você cantar
Tu já fez parte

Dos meus alcances vocais
Das geometrias que enxergo ao fechar os olhos
Das coisas que tanto me impressionam
Da espessura dos fios dos meus cabelos
Das minhas singularidades

Te trago como espelho e enfeite de verão
(Pra adorno de corpo inteiro e além)

Dessa vez
Não houve despedida
-Te enraízo em mim-

-E rego-
Quiçá não há de ter nunca mais


segunda-feira, 30 de maio de 2016

Fiz um rezo forte à Minguante
Enquanto osmose na sua boca e na minha
Eu toco tuas costelas e tu me toca a alma inteira
De arrepio
É só pela luz da Mestra Azulada
Que posso transpirar pra dentro de ti


Desconfie dos meus silêncios 



quarta-feira, 4 de maio de 2016

Vinte

Foi segunda feira e minguei meus dezenove

Eu estou renascendo
Eu estou saindo do útero 
Feito da argamassa que me moldou até hoje 
Levando só a placenta molhada de vida nutritiva
E a essência do que fui pelo que restou do cordão umbilical
Eu balbucio quem agora estou 
Com o intento de ser clara

 (mas é sempre impossível falar claramente quando se nasce todo dia)

Mas há que se tentar e tentar 
Há que se desvencilhar dos sucos ácidos 
Que permanecem destruindo as asas de aquarela que se formam
No meu casulo
Há que sair e me permitir
Ser meia lagarta, meia borboleta
E ser inteira uma

Ser agora
Parida pelas mãos da Divindade 
Que delineia meus corpos,
Que rege meu caminho e se apresenta todos os dias
Com novos nomes e formas
Que metamorfoseia meus olhares 
Meu primitivo, meu segundo-minuto-tempo-lento, meu terceiro olhar

Ser abençoada pela magia e pelo concreto 
Ser magia
Ser concreto
Ser bicho
Ser mundo
Ser as fusões todas
Ser esse segredo cochichado que finge gritar

Me assumo inteira quando em silêncio cochicho secretamente os elementos e entidades
E os tenho todos concentrados para muito além dos meus chakras
Me assumo feiticeira do resgate ao úmido vivo da terra
Assumo todas as faces que expresso

EU SOU MUITAS

Sou choupana de pau a pique 
Cercada de mata e água
E preenchida de flores
E carvalhos
E espíritos 
Que perpassam 
Todas 
As sinapses da minha pele, meu órgãos, minhas mãos

Sei ser bosque
Sei ser selva 
Caminho minhas trilhas muito bem acompanhada de mim
Não deixo migalhas atrás dos passos - vou
Embora
A cada dia
E peço licença para adentrar 
Nos corações daqueles que amo 
Sem tirar liberdades


Que seja recíproco